Migrar COBOL com IA acaba de ficar bem mais fácil, pelo menos no laboratório da OpenAI. Num teste da própria empresa, publicado em 19/10, o GPT-6.1 Sol reescreveu programas COBOL em Java, Python e outras linguagens sem mudar o comportamento em 86,6% dos casos com pouco raciocínio, e em 97,9% com mais raciocínio. A geração anterior, o GPT-5.6 Sol, acertava 5,4%. O número impressiona, mas o detalhe que mais importa para quem mantém esse tipo de sistema é como o acerto foi medido.
Abaixo explico o que a OpenAI anunciou, por que o COBOL ainda é usado, como o teste funciona e o que eu conferiria antes de confiar uma migração dessas a qualquer IA.
O que a OpenAI anunciou sobre COBOL
A OpenAI publicou um estudo sobre linguagens “com poucos dados disponíveis”: COBOL, Fortran, Visual Basic e OCaml. São linguagens com pouco código aberto na internet para o modelo aprender, e por isso as IAs de programação costumam se atrapalhar com elas. A empresa criou duas avaliações e não lançou produto novo. Os modelos citados já estão na API.
| Avaliação | Modelo | Resultado | Antes (GPT-5.6 Sol) |
|---|---|---|---|
| Migração de COBOL (pouco raciocínio) | GPT-6.1 Sol | 86,6%, a 61% do custo | 5,4% |
| Migração de COBOL (mais raciocínio) | GPT-6.1 Sol | 97,9% | — |
| MultiLangBench, média de 20 linguagens | GPT-6 Astra | 87,4% | 26,8% |
| MultiLangBench, só COBOL | GPT-6 Astra | 72,1% | 10,9% |
| MultiLangBench, média (opção barata) | GPT-6 Luna | 40,3%, US$ 0,77 por amostra | 26,8%, US$ 3,48 |
O MultiLangBench pede ao modelo que construa do zero um banco de dados compatível com o SQLite, em 20 linguagens. O COBOL segue sendo a mais difícil: o GPT-6 Astra passou de 83% em 19 das 20 linguagens, e só no COBOL ficou em 72%. A boa notícia é que a OpenAI abriu a configuração e a suíte de testes dessa avaliação no GitHub. A de migração de COBOL, não.
O COBOL ainda é usado?
Sim, e muito, principalmente em banco. A OpenAI cita levantamentos segundo os quais o COBOL roda por trás de mais de 40% dos sistemas de internet banking, de 80% das compras presenciais com cartão e de 95% dos saques em caixa eletrônico. A linguagem é de 1959 e continua no ar porque funciona, processa volumes enormes e carrega regras de negócio que, muitas vezes, só existem no código. A documentação se perdeu e os programadores originais se aposentaram.
Manter isso custa caro. Uma pesquisa da TQI, da Fundação Dom Cabral e da Integratum, publicada pela Exame em setembro, mostrou que 76% de 51 organizações brasileiras gastam pelo menos 70% do orçamento de TI só para manter o que já existe. É esse dinheiro que IBM, AWS, Anthropic e agora a OpenAI disputam com ferramentas de modernização.

Como a IA migra COBOL, e como a OpenAI mediu o acerto
Migrar é reescrever o programa em outra linguagem (C++, Java, Kotlin, Python ou Rust, no teste da OpenAI) mantendo exatamente o mesmo resultado. A OpenAI rodou cada migração contra testes ocultos que exigem saída idêntica, byte a byte. Uma única diferença reprova a migração inteira. Na área de testes, isso tem nome: teste de caracterização. Você não testa o que o programa “deveria” fazer, testa se o novo faz exatamente o que o antigo faz.
O exemplo que a própria OpenAI usa é o do arredondamento. Por padrão, a conta de ponto fixo do COBOL corta as casas decimais que sobram, a não ser que o programa peça arredondamento. Veja o efeito numa conta de juros:
* COBOL: saldo 1.234,56 x taxa 0,0199 = 24,567744
COMPUTE WS-JUROS = WS-SALDO * WS-TAXA.
* WS-JUROS PIC 9(7)V99 guarda 24,56 (corta, não arredonda)
# Python "traduzido" sem cuidado
juros = round(1234.56 * 0.0199, 2) # 24.57: um centavo a maisOs dois programas rodam sem erro. Só que, num banco com milhões de contas, esse centavo vira dinheiro de verdade e diferença na conciliação. Um teste byte a byte pega a diferença. Um teste que só confere se o programa “não quebrou” deixa passar. (Exemplo ilustrativo nosso, com os mesmos números do comentário.)
Os 97,9% valem para o sistema do seu banco?
Ainda não dá para saber. O teste de migração é fechado: não se sabe quantos programas ele tem, de que tamanho nem com que tipo de lógica. Programa de avaliação tende a ser menor e mais limpo que um sistema de banco de 40 anos, que conversa com JCL, CICS, arquivos VSAM e outros programas. A própria OpenAI escreve que o uso em produção exige revisão especializada e testes das regras de negócio e das dependências do sistema.
O que muda de fato é o ponto de partida. Uma IA que acertava 5% servia, no máximo, para explicar código antigo. Com 86% a 98% em teste controlado, ela passa a ser candidata a fazer o primeiro rascunho da migração, e o trabalho humano se desloca para conferir.
Como testar uma migração de COBOL feita por IA
Se a sua equipe for experimentar, este é o roteiro que eu seguiria, do mesmo jeito que a OpenAI fez no laboratório, só que com os dados da casa:
- Grave antes de migrar. Rode o programa COBOL atual com entradas reais (anonimizadas) e guarde as saídas: arquivos, relatórios, registros gravados. Esse é o “gabarito”.
- Compare byte a byte. Rode o programa migrado com as mesmas entradas e compare tudo, inclusive espaços à direita, zeros à esquerda e sinal. “Parecido” não serve.
- Monte os casos de borda de propósito: arredondamento e truncamento, campos compactados (COMP-3), valores negativos, data de 29 de fevereiro, registro ausente, arquivo vazio, maior valor que o campo aceita.
- Teste o que está em volta. Ordem de execução no lote, tempo da janela noturna, travas de concorrência e integração com os outros programas. O teste da OpenAI não mede nada disso.
- Rode em paralelo antes de desligar o antigo. Os dois sistemas processando o mesmo movimento por algumas semanas, com conciliação diária das diferenças.
É o mesmo cuidado que defendo para qualquer agente de IA que mexe em coisa séria, como no checklist de QA para testar um agente de IA e no caso do agente que apagou a temporada de um reality.
O olhar de QA
Trocar o motor com o carro andando. É assim que muita gente de TI descreve a migração de um sistema de banco. Para quem é dono do carro, só interessa uma coisa: depois da troca, ele continua levando você aos mesmos lugares, do mesmo jeito? No banco é igual. Cada saldo, cada juro e cada centavo precisam sair exatamente como saíam antes. A OpenAI mediu justamente isso: só contou acerto quando o programa novo deu o mesmo resultado do antigo, sem nenhuma diferença. Essa régua é boa, e mais exigente do que a de muito projeto de modernização que eu já vi ser aprovado com um “testamos os casos principais”.
O que me segura é que essa prova de COBOL é secreta. A outra prova da OpenAI, a de construir um banco de dados do zero, está aberta na internet, e qualquer pessoa pode refazer e conferir. A de COBOL, que é a que interessa aos bancos, ninguém de fora consegue repetir. Sem saber o tamanho e a dificuldade dos programas testados, 97,9% é uma promessa, ainda não uma medição. Para quem trabalha com isso, o recado prático é simples: a parte difícil deixou de ser escrever o programa novo e passou a ser ter guardado, antes, o resultado certo do sistema antigo para comparar. Quem tem esse gabarito em mãos sai na frente.
Perguntas frequentes
Qual linguagem substitui o COBOL?
Não existe uma só. Na avaliação da OpenAI, os destinos foram C++, Java, Kotlin, Python e Rust. No mercado, Java e C# são as mais comuns em modernização de mainframe.
A IA consegue entender COBOL?
Consegue cada vez melhor. No teste da OpenAI, o acerto na migração subiu de 5,4% para 86,6% de uma geração para a outra, com pouco raciocínio. COBOL continua sendo a linguagem mais difícil das 20 avaliadas no MultiLangBench.
O que é o GPT-6.1 Sol?
É o modelo de programação e trabalho da OpenAI lançado no DevDay, em 29/09/2026, disponível na API e no Codex. Foi ele que fez 86,6% e 97,9% no teste de migração de COBOL.
Programador de COBOL vai perder o emprego?
O próprio anúncio diz que a migração em produção exige revisão especializada. Quem entende as regras de negócio do sistema antigo continua sendo quem diz se a migração está certa.
Você trabalha ou já trabalhou com COBOL? Confiaria uma migração a uma IA? Conta aqui nos comentários.
Resumo
- Em teste da OpenAI (19/10), o GPT-6.1 Sol migrou COBOL sem mudar o comportamento em 86,6% dos casos, e em 97,9% com mais raciocínio. Antes eram 5,4%.
- O critério é saída idêntica byte a byte, em testes ocultos: o teste de migração não é público.
- O COBOL ainda roda boa parte dos bancos, e a armadilha clássica é o arredondamento.
- Para usar de verdade: gabarito com as saídas do sistema antigo, comparação byte a byte, casos de borda e execução em paralelo.
Fontes
- OpenAI: Avanços na programação em linguagens com poucos dados disponíveis (19/10/2026)
- BleepingComputer: OpenAI says GPT-6.1 Sol is dramatically better at migrating legacy code (20/10/2026)
- Exame: OpenAI avança em COBOL, linguagem antiga e ainda usada por bancos (20/10/2026)
- The Decoder: OpenAI says GPT-6 is much better with legacy programming languages
- IBM: O que é a modernização do COBOL?


