Domingo, 4 de outubro, é dia de primeiro turno. E esta é a semana em que mais circula vídeo “bombástico” de candidato no WhatsApp. Parte deles é deepfake: vídeo ou áudio criado ou alterado por inteligência artificial para parecer real. Neste guia: o que a Justiça Eleitoral considera deepfake, a regra que vale nos dias da votação, um checklist rápido para conferir um vídeo antes de compartilhar e onde denunciar.
Atualização de 7 de outubro: o segundo turno é no domingo, 25 de outubro, e tudo o que está neste guia continua valendo. A proibição de conteúdo sintético novo com candidatos volta a valer 72 horas antes da votação, a partir da quinta-feira, 22 de outubro, e vai até 24 horas depois.
O que o TSE considera deepfake
Em 1º de setembro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) fixou o critério que orienta os juízes eleitorais. Deepfake é o conteúdo sintético, produzido ou manipulado por inteligência artificial (ou tecnologia equivalente), realista, que cria, reproduz ou altera a imagem, a voz ou a manifestação de uma pessoa, viva, falecida ou fictícia. A proibição eleitoral vale quando esse conteúdo é usado como propaganda eleitoral.
As regras para 2026 também exigem que toda propaganda feita ou alterada de forma relevante com IA avise isso de forma clara ao eleitor, e proíbem o uso de deepfake para favorecer ou prejudicar uma candidatura.
A regra dos dias de votação: 72 horas antes, 24 horas depois
Entre 72 horas antes e 24 horas depois da votação, é proibido publicar, republicar ou impulsionar conteúdo sintético novo com a imagem, a voz ou a manifestação de candidatos ou de figuras públicas, mesmo que esteja identificado como feito por IA. Ou seja: a partir desta quinta-feira, um vídeo novo de candidato gerado por IA não deveria aparecer em lugar nenhum. Se aparecer, desconfie em dobro.
Por que isso importa: os números
- O Observatório Lupa registrou 39 conteúdos falsos feitos com IA em 2024 e 159 em 2025, um salto de 308% de um ano para o outro.
- Num estudo publicado na revista científica Scientific Reports em 2025, as pessoas acertaram se uma voz era gerada por IA em cerca de 60% das tentativas, pouco mais que no chute.
Ou seja: confiar só no olho (e no ouvido) não basta. O que funciona é método.
Na dúvida, não compartilhe. Um vídeo falso só ganha força quando a gente repassa.
Checklist: 7 conferências antes de compartilhar
- De onde veio? Encaminhado “de um amigo” não é fonte. Procure o perfil oficial do candidato (confira o endereço exato da conta) ou um veículo de imprensa.
- Quando foi gravado? Vídeo antigo fora de contexto é tão enganoso quanto um feito por IA. Procure a data original.
- Tem a versão completa? Corte curto e chocante é sinal de alerta. Assista ao vídeo inteiro, na fonte.
- Alguém já checou? Pesquise o nome do candidato e a frase do vídeo nas agências de checagem, como Projeto Comprova, Lupa e Aos Fatos.
- Olhe os detalhes: boca fora de sincronia com a fala, contorno do rosto “derretendo”, sombras e reflexos que não batem, dentes, óculos e brincos que mudam de forma.
- Escute com atenção: respiração que não existe, entonação plana, palavras emendadas. Áudio é o mais difícil de pegar: por isso os itens 1 a 4 valem mais que o seu ouvido.
- Urgência é sinal de alerta: “compartilhe antes que apaguem” é técnica de manipulação, não de jornalismo.
O olhar de quem testa sistemas: “acontece de novo?”
No meu trabalho, eu testo sistemas antes de eles chegarem às pessoas. Quando alguém me avisa “o sistema fez uma coisa estranha”, eu não acredito de primeira e também não ignoro: eu tento ver a mesma coisa acontecer de novo, em outro lugar. Se só uma pessoa viu e ninguém mais consegue ver, desconfio.
Com um vídeo de candidato vale o mesmo raciocínio, e não precisa entender nada de tecnologia. Na prática:
- Procure o mesmo vídeo em outro lugar: no perfil oficial do candidato, num jornal ou num site de notícias conhecido. Coisa grande de verdade aparece em vários lugares ao mesmo tempo.
- Só existe no grupo da família ou num perfil desconhecido? Esse é o sinal de alerta. É como a reclamação que ninguém mais consegue repetir.
- Não confie numa prova só. Existem sites que dizem “detectar” vídeo feito por IA (como o Hive Moderation, usado em checagens de áudio), mas eles erram para os dois lados: às vezes apontam vídeo verdadeiro como falso, e o contrário. Use como mais uma pista, nunca como a resposta final.
Esse hábito protege porque o vídeo falso depende de uma coisa para funcionar: que a gente repasse antes de conferir. Dois minutos de busca quebram essa corrente.
Onde denunciar: Pardal ou Siade?
| Canal | Para quê |
|---|---|
| Pardal (aplicativo do TSE, Android e iPhone) | Tudo que envolve candidatos, partidos e pesquisas: propaganda irregular, conteúdo feito por IA sem aviso, vídeo enganoso de candidato, perfil falso de candidato. |
| Siade (Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral, no site do TSE) | Desinformação sobre a urna e o processo eleitoral: informação falsa sobre a segurança da urna, data ou local de votação errados, página que imita a Justiça Eleitoral, tentativa de desestimular o voto. A denúncia é anônima. |
Para a denúncia render, mande o link exato da publicação, diga em qual plataforma está, explique por que acha que é falso, informe se alguma agência já checou e anexe um print da tela.
Candidatos também têm uma ferramenta própria: o Likeness ID, do YouTube, criado em parceria do Google com o TSE, procura na plataforma vídeos que imitam a aparência do candidato cadastrado, inclusive os feitos por IA. Ela não é para o eleitor, e não substitui a denúncia.
Perguntas frequentes sobre deepfake nas eleições
Como identificar se um vídeo de candidato é deepfake?
Comece pela fonte, não pela imagem: veja de onde o vídeo veio, quando foi gravado, se existe a versão completa e se alguma agência de checagem já falou dele. Depois olhe os detalhes, como boca fora de sincronia, contorno do rosto “derretendo” e sombras que não batem. Áudio é o mais difícil de pegar, então a fonte vale mais que o seu ouvido.
O que o TSE considera deepfake?
Conteúdo realista produzido ou alterado por inteligência artificial, ou tecnologia parecida, que cria, reproduz ou altera a imagem, a voz ou a fala de alguém. O uso de deepfake para favorecer ou prejudicar candidatura é proibido.
Pode publicar vídeo feito com IA perto da eleição?
Entre 72 horas antes e 24 horas depois da votação, não pode publicar, republicar nem impulsionar conteúdo sintético novo com candidatos ou figuras públicas, mesmo com aviso de que foi feito por IA. Fora desse período, a propaganda feita com IA precisa avisar isso de forma clara.
Onde denunciar deepfake de candidato?
No aplicativo Pardal, do TSE, para tudo que envolve candidatos, partidos e propaganda. Desinformação sobre a urna e o processo eleitoral vai para o Siade, no site do TSE, e a denúncia é anônima. Páginas que imitam a Justiça Eleitoral também entram no Siade, como o golpe do falso TSE que cobra Pix.
Minha opinião
A tecnologia para criar vídeo com IA ficou barata e muito realista. Eu conheço isso de perto: aqui no site também usamos IA para criar algumas imagens e vídeos ilustrativos, e sempre avisamos na legenda (“Imagem ilustrativa gerada por IA”). É justamente por usar a ferramenta no dia a dia que eu sei como o resultado pode parecer real, e por isso defendo a mesma regra que o TSE cobra na propaganda: conteúdo feito com IA precisa ser declarado.
O problema não é a IA, é quem esconde que usou IA para enganar. Como a gente nem sempre vai conseguir perceber sozinho, a defesa é um hábito simples: conferir a fonte antes de repassar. Vale para qualquer lado, qualquer candidato e qualquer eleição.
Resumo
- Deepfake, para o TSE: conteúdo realista feito ou alterado por IA que imita imagem, voz ou fala de alguém.
- De 72 horas antes a 24 horas depois da votação, conteúdo sintético novo com candidatos é proibido, mesmo com aviso de IA.
- Antes de repassar: fonte, data, versão completa, checagem e detalhes. Na dúvida, não compartilhe.
- Denuncie: Pardal para candidatos e propaganda; Siade para urna e processo eleitoral.
Fontes
- TSE: tese sobre deepfake para as Eleições 2026 (01/09/2026)
- TSE: como denunciar desinformação, Siade × Pardal (18/09/2026)
- Canaltech: como saber se um vídeo de candidato é verdadeiro (30/09/2026)
- Exame: deepfakes crescem 308%, dados do Observatório Lupa (24/09/2026)
- Correio Braziliense: Likeness ID, do YouTube, para candidatos (26/08/2026)


